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Angola · Kilamba, Belas (Luanda) · Ver o perfil de Angola
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Angola construiu 20.002 apartamentos fora de Luanda com um emprestimo chines de 2,5 mil milhoes de dolares garantido por petroleo. So 220 dos primeiros 2.800 foram vendidos; a cidade so encheu apos forte corte de precos e subsidio, beneficiando quase so os 30% mais ricos.
A Nova Cidade do Kilamba e uma cidade satelite cerca de 30 km a sul de Luanda, construida pela CITIC Construction ao abrigo de um contrato EPC de 3,535 mil milhoes de dolares assinado em novembro de 2007 e financiada em grande parte por uma facilidade pre-exportacao de 2,5 mil milhoes de dolares garantida por petroleo, concedida pelo ICBC a Sonangol em novembro de 2010. A Fase 1, entregue em setembro de 2012, compreendeu 710 edificios com 20.002 apartamentos, 246 lojas, 24 jardins de infancia, 9 escolas primarias e 8 secundarias, estacoes proprias de agua e saneamento e duas subestacoes eletricas; a AidData regista 60.000 trabalhadores no projeto, 60% deles angolanos. Foi a obra emblematica do Programa Nacional de Urbanismo e Habitacao, veiculo da promessa presidencial de 2008 de um milhao de casas em quatro anos, e tornou-se o modelo de mais de vinte outras 'centralidades'.
O preco destruiu o proposito declarado da politica. Em agosto de 2010 o presidente prometeu que as habitacoes subsidiadas seriam vendidas por um maximo de 60.000 dolares; a AidData regista que acabaram por ser comercializadas entre 125.000 e 200.000 dolares, duas a tres vezes o valor prometido. Em julho de 2012 a BBC constatou que apenas 220 dos primeiros 2.800 apartamentos tinham sido vendidos quase um ano apos o inicio da comercializacao, num pais onde cerca de dois tercos da populacao vivia com menos de 2 dolares por dia, e descreveu uma cidade vazia cuja escola transportava alunos de fora porque nenhuma crianca ali morava.
A narrativa da 'cidade fantasma' foi depois invertida, mas por subsidio e nao por procura. As vendas subsidiadas abriram em fevereiro de 2013 e a tipologia T3 mais barata baixou de 125.000 para 70.000 dolares; em setembro de 2013 a SONIP anunciou que todos os T3+1 restantes tinham sido vendidos, e o Africa Research Institute registou cerca de 80.000 habitantes em 2015. O Centre for Affordable Housing Finance in Africa documenta as condicoes que o tornaram possivel: um decreto presidencial de agosto de 2014 fixou juros de 3% ao ano a 20 anos contra uma taxa de mercado proxima de 15%, o que, conclui Allan Cain, abandonou na pratica qualquer expectativa de recuperar o investimento do Estado e continuara a drenar os orcamentos publicos durante anos.
A analise independente e consistente sobre quem beneficiou. O trabalho de campo do SAIIA em 2014 concluiu que apenas cerca de 20% da populacao de Luanda — agregados com mais de 2.000 dolares mensais em emprego formal — podia ali viver, tornando a cidade acessivel 'apenas a uma pequena, ainda que crescente, classe media'. A analise de Cain com metodologia de poverty scorecard concluiu que os beneficiarios se situavam quase exclusivamente nos 30% mais ricos, quase nenhum da comunidade-alvo da base da piramide; os funcionarios publicos eram clientes preferenciais em parte por a renda poder ser descontada na fonte. O inquerito de Croese e Pitcher a cerca de 300 residentes de tres projetos de Luanda (Urban Studies, 2019) conclui que o modelo produziu beneficiarios nao intencionais e aumentou a estratificacao social e espacial.
A operacao e a continuidade foram fracas. O mandato de gestao da SONIP foi revogado em dezembro de 2014 apos cerca de 5.000 queixas, com cerca de 5.500 compradores a terem pago um ano de caucao sem receber chaves. O SAIIA concluiu que ao Kilamba continuavam a faltar saude, transporte integrado e energia fiavel, com a recolha de residuos e a manutencao de elevadores ainda a cargo do empreiteiro como servico pos-venda, e que estas cidades 'permanecem bairros-dormitorio ex nihilo e nao areas urbanas integradas e autossuficientes'. Com a queda do preco do petroleo, o orcamento do Estado caiu de 74 para 41 mil milhoes de dolares entre 2014 e 2016 e o kwanza foi desvalorizado mais de 40%; a tentativa da IMOGESTIN de recuperar atrasados duplicando as rendas gerou comissoes de moradores em quase todos os edificios e uma quase greve de rendas em 2015-16.
Ao nivel do programa o balanco e ainda mais duro: Cain reporta 220.672 das 1.000.000 de habitacoes planeadas, com a autoconstrucao dirigida pelo Estado — 68,5% do plano e a sua unica componente genuinamente pro-pobre — a entregar 12.906 de 685.000 unidades, ou 1,9%. A imprensa economica angolana situa a despesa do PNUH em 16,7 mil milhoes de dolares para 88.924 habitacoes em 23 centralidades construidas ate ao final de 2021, com 9.353 por vender. O Kilamba e aqui incluido como caso de alerta bem documentado: mostra que um Estado pode entregar habitacao a escala muito grande e muito depressa com financiamento externo garantido por materias-primas e ainda assim falhar a populacao que designou como beneficiaria, a menos que acessibilidade, focalizacao, integracao de servicos e um caminho de recuperacao de custos sejam concebidos desde o inicio.
Ressalvas sobre os numeros: nao existe censo independente da nova cidade. As estimativas de cerca de 120.000 (CITIC, 2023) e cerca de 129.000 (Embaixada de Angola, 2021) sao auto-reportadas por partes interessadas; a ultima estimativa independente e de cerca de 80.000 para 2015-16. A capacidade planeada e citada de forma inconsistente (200.000-500.000 na AidData, 'ate meio milhao' na BBC, mais de 160.000 em Cain). Note-se ainda que o valor censitario de cerca de 1,12 milhoes para 'Kilamba Kiaxi' se refere a um municipio de Luanda distinto e mais antigo, e nao a esta nova cidade, que fica em Belas.
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